Arquivo para setembro, 2010

30/setembro/2010

Não é sobre onde você achou o seu!

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“Formou já?”

“Técnico em meio ambiente com ênfase em gestão e negócios de resíduos.”

“Tá que nem pinto no lixo, então?”

Pinto no lixo?”

“Nao conhece a expressão? Imagina como fica um pintinho no lixo…”

Tadinho!”

“Mas não é pra sentir dó!”

“Mas o meu pinto? No lixo?”

“Definitivamente, você não sabe do que eu falo…”

“Pois é. Não sei.”

Pinto no lixo é a felicidade mais perfeita.”

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A propósito, estão aqui duas bobagens com nomes de pinto – 1 e 2.

28/setembro/2010

Marina, Cristovam, Ciro, Leonel…

Todos querem máquina pública eficiente, que saiba arrecadar e que saiba gastar o dinheiro dos impostos. Todos querem justiça, oportunidades mais igualmente divididas. Todos querem crescimento. E cada um acha que há um caminho certo pra se conseguir todas essas coisas.

As pessoas brigam em defesa de suas ideias sobre como o mundo tem que ser organizado. Se estivermos falando do país, a briga certamente vai passar por subir juros, descer juros, expandir a assistência às famílias carentes, enxugar a máquina pública e a carga tributária (dá até preguiça fazer essa lista)… E com essas escolhas, é um sistema que se defende ou que se combate.

Todo mundo quer que tudo funcione certo, mas mesmo essa noção de funcionamento correto só se forma dentro da confusão da vida, do sentimento de pertencer a classes, da fé que as pessoas têm, da descrença que justificadamente podem ter, da necessidade de legitimar suas conquistas, da solidariedade que sentem, das informações que recebem, do tempo que estão dispostas a dedicar ao assunto (mais uma lista extensa)…

Mas nem acho que quando decidimos em quem votar, estamos pensando no país, somente. A gente pensa torto, incongruente. Decide às vezes por nós mesmos, e às vezes pelo mundo todo. E mistura, no julgamento, o que acha bonito com o que acredita ser verdadeiro, o que quer que seja certo com o que acha bom.

Nossa conversa começou permeada por escolhas. A gente se enche de fé na razão na hora de fazer nossas escolhas. E quando a razão parece falhar, como no caso dessa política de merda, resta uma decepção, uma indignidade (existe isso?) na gente. Essa escolha, se tentamos fazê-la racionalmente, nos frustra. Acho que os rumos não mudarão muito na política nacional, nem na administração pública, qualquer que seja o presidente eleito. Ainda assim, tem tanta gente brigando

14/setembro/2010

Como escolher um título

Se a sua ideia for, como frequentemente comigo é, falar somente a si mesmo, o título de seu texto pode não guardar relação direta com nada que exista nele. Tem lá uma linha com umas palavras escritas em cima, mas elas servem mais é pra você associar aquele produto do seu pensamento com as condições em que ele foi matutado.

Qualquer outra intenção de um texto, que não seja a satisfação egocêntrica de seu dono, exige um título esclarecedor. Num trabalho acadêmico, num assunto de email, numa capa de livro, na abertura de um vídeo, as palavras que vão ali na frente têm que servir tanto pra anunciar o que há de aparecer pela frente quanto pra fazer lembrar depois o que já foi visto.

Ser bonito, ter alguma poesia, fazer graça, são todas qualidades acessórias. Um título precisa mesmo é adiantar um pouco o que vem a seguir, pra depois poder ressuscitar um pouco o que passou. Pense em O Capital. E em O Suicídio. Ou ainda em Metamorfose. Também em Dom Casmurro. Quem vê essas pistas antes da leitura pode confiar no caminho. Depois de ter lido, um tanto das palavras pode se perder, mas o título continua guardando consigo o substancial.

Esse recurso que uso nos posts daqui, então, eu queria explicar que só serve mesmo é pra a minha memória sobre as coisas. Título aqui é ilustração, e serve pra minhas próprias graças. Mas não é um caminho interessante pra qualquer escrita que se pretenda comunicativa.

Os dois novos itens de minha coleção aberta é que me botaram a pensar nessa lenga-lenga conversinha didática.

Meu Brasil, de Daniela Broitman, é um filme bem legal, escondido atrás desse título já muito esvaziado.

Chico – Ou O País Da Delicadeza Perdida, de Nelson Motta e Walter Salles, um especial para a televisão francesa que foi lançado por aqui em DVD, não se atreveu a falar de Brasil em seu título, e fez uma escolha bem mais feliz.

9/setembro/2010

Passou e esqueci

Já faz mais de um ano que escrevo isso.

E como estou esquecendo do aniversário de todo mundo, acho que não poderia ser diferente com o do blog aqui.

Troquei a cara da página, pra me sentir escrevendo coisa nova.

E agora estou me sentindo paralisado de botox.

6/setembro/2010

Leva, que aqui comigo ele não serve é pra nada.

Fomos levar Breno ao ponto de ônibus. Tá. Fomos e lá ficamos um bom tempo. Rodoviária, Central, mais Rodoviária, Maracanã, Vila Isabel, mais Central — todos os ônibus passariam umas vinte vezes, antes que chegasse o que levava ao Galeão, pra Breno poder enfim descansar, e pra a gente poder enfim descansar também. Imagina aí, pega por suas lembranças e vai. “Como é que era quando eu queria muito pegar um ônibus e ele jamais passava? …”

Ficávamos os três de papo, e olhando pra os letreiros. Um carro suspeito descia o viaduto, lá de cima, e a gente já se afastava, cada um a marcar sua posição combinada antes, pra não correr risco de motorista passar pela esquerda sem ver nossas mãos sacudindo. Parecia que na noite de tempo fechado, a condução pra o aeroporto ia se escapulir da gente, se fingindo de van pra a Tijuca ou de caminhão de lixo. Os alarmes falsos passavam, a gente voltava a se ajuntar e conversar, ligeiramente sem assunto, com a cabeça no asfalto.

Do nosso lado, colado na placa grande do ponto, um casalzinho veio namorar. Eles não tinham quinze anos ainda, se eu sei ver idade na cara dos outros. Beijavam sem conversa. Desmascarar o ônibus que levaria ao aeroporto era coisa mais boa de se fazer do que prestar atenção nesses namoros, que mais compõem paisagem do que servem à gente de bom assunto.

Mas aquele menino tinha que parar de beijar pra cantar um samba de amor?! Já nem vejo ninguém cantar samba de amor, e menos ainda os assumidamente de amor, e me vem esse guri cantar pra a sua mulher (!) que descobriu que a amava demais, e nela a paz dele, “verdaaaade”. Fui capturado, não houve jeito.

Daí veio o ônibus. Não o do aeroporto, mas o da menina namorada. Casalzinho parou com a mão, ela correu pra a escada, depois de um último beijo, e do meio fio ele olhou pra cima, querendo não separar mais. Era a hora de um aceno forte, meio desesperado, “tchau, meu amor, e vai ser duro passar uma noite inteirinha longe…” Aceno? Foi forte, foi meio desesperado, mas foi um coraçãozinho desses feitos com as mãos juntas e arqueadas.

Um menino de quinze anos ou menos lançou seu coração pra dentro de um ônibus, correndo enquanto podia acompanhá-lo. Pode dizer que há nisso pieguice, moda, embotamento de subjetividade e o escambau. Eu também diria. Mas não vou dizer, não. Vou fingir que nunca vi coraçãozinho ser feito com as mãos antes, pra ali ter sido a primeira vez. Aí minha emoção vai ficar mais decentemente justificada. Eu vi nascer um gesto que ninguém mais vai repetir (eita, ilusão besta).

Acho que dali pra a frente, não consegui mais pensar no que eu tava fazendo na rua. Só via corações sendo lançados aos ônibus. Ainda bem que Daniel, muito atento, deu o sinal pra que parasse a condução que levaria Breno ao aeroporto.

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