Leva, que aqui comigo ele não serve é pra nada.

Fomos levar Breno ao ponto de ônibus. Tá. Fomos e lá ficamos um bom tempo. Rodoviária, Central, mais Rodoviária, Maracanã, Vila Isabel, mais Central — todos os ônibus passariam umas vinte vezes, antes que chegasse o que levava ao Galeão, pra Breno poder enfim descansar, e pra a gente poder enfim descansar também. Imagina aí, pega por suas lembranças e vai. “Como é que era quando eu queria muito pegar um ônibus e ele jamais passava? …”

Ficávamos os três de papo, e olhando pra os letreiros. Um carro suspeito descia o viaduto, lá de cima, e a gente já se afastava, cada um a marcar sua posição combinada antes, pra não correr risco de motorista passar pela esquerda sem ver nossas mãos sacudindo. Parecia que na noite de tempo fechado, a condução pra o aeroporto ia se escapulir da gente, se fingindo de van pra a Tijuca ou de caminhão de lixo. Os alarmes falsos passavam, a gente voltava a se ajuntar e conversar, ligeiramente sem assunto, com a cabeça no asfalto.

Do nosso lado, colado na placa grande do ponto, um casalzinho veio namorar. Eles não tinham quinze anos ainda, se eu sei ver idade na cara dos outros. Beijavam sem conversa. Desmascarar o ônibus que levaria ao aeroporto era coisa mais boa de se fazer do que prestar atenção nesses namoros, que mais compõem paisagem do que servem à gente de bom assunto.

Mas aquele menino tinha que parar de beijar pra cantar um samba de amor?! Já nem vejo ninguém cantar samba de amor, e menos ainda os assumidamente de amor, e me vem esse guri cantar pra a sua mulher (!) que descobriu que a amava demais, e nela a paz dele, “verdaaaade”. Fui capturado, não houve jeito.

Daí veio o ônibus. Não o do aeroporto, mas o da menina namorada. Casalzinho parou com a mão, ela correu pra a escada, depois de um último beijo, e do meio fio ele olhou pra cima, querendo não separar mais. Era a hora de um aceno forte, meio desesperado, “tchau, meu amor, e vai ser duro passar uma noite inteirinha longe…” Aceno? Foi forte, foi meio desesperado, mas foi um coraçãozinho desses feitos com as mãos juntas e arqueadas.

Um menino de quinze anos ou menos lançou seu coração pra dentro de um ônibus, correndo enquanto podia acompanhá-lo. Pode dizer que há nisso pieguice, moda, embotamento de subjetividade e o escambau. Eu também diria. Mas não vou dizer, não. Vou fingir que nunca vi coraçãozinho ser feito com as mãos antes, pra ali ter sido a primeira vez. Aí minha emoção vai ficar mais decentemente justificada. Eu vi nascer um gesto que ninguém mais vai repetir (eita, ilusão besta).

Acho que dali pra a frente, não consegui mais pensar no que eu tava fazendo na rua. Só via corações sendo lançados aos ônibus. Ainda bem que Daniel, muito atento, deu o sinal pra que parasse a condução que levaria Breno ao aeroporto.

2 Comentários para “Leva, que aqui comigo ele não serve é pra nada.”

  1. Nessa hora meu coração já tinha chegado ao destino antes que eu, antes mesmo que eu tomasse qualquer ônibus e qualquer avião.

  2. Que texto mais bom de ler. Ah, e que os corações se multipliquem e que sejam sempre todos lançados.

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