Arquivo para novembro, 2010

18/novembro/2010

Eu só queria estar embaixo do fogão!

Tenho um amigo de uma curiosidade que impressiona. Fuçar e garimpar são hábitos muito valorizados por esses dias de trocas em rede, mas tenho quase sempre a sensação de que as buscas chegam mais é a coisas repetidas e conformadas, e que há mais de obsessão do que de gosto nessas procuras. E a pesquisa do meu amigo nessa vida não me faz nunca esse incômodo brotar.

O que faz esse moço, que nos bota invejosos? Faz a gente achar bonito o que é ululante, ri na cara do brega, bota a porcariada hype no chinelo, e chama navio de barquinho sem medo de ser feliz.

O encontro com ele deixa pra mim essas marcas que, suavizadas, ficam ainda mais bonitas: lembro dele ouvindo música, lendo coisas na Internet, dançando, e de vez em quando penso no tanto que os caminhos da minha vida foram transformados por sua carinhosa presença.

Alguma coincidência dessa semana me fez procurar também por uma coisa engraçadinha, e na beira do aniversário dele, encontrei essa versão em inglês pra o poema que ele acusa de ter sido meu. A versão original, posso deixar pra quem não conhece o gostinho de encontrar por si mesmo. Um presente meu pra esse cara amoroso é tornar pública aqui a cute thing of our relationship…

Guinea Pig


When I was six years old

they gave me a guinea pig.

What heartache it caused me—

all the little creature wanted was to hide out under the stove!

I carried it to the living room,

to the prettiest and best-kept corners of the house

but it didn’t like them.

All it wanted was to hide out under the stove.

It didn’t pay my affectionate gestures the slightest notice.


—My guinea pig was my first girlfriend.



Porquinho-da-índia, de Manuel Bandeira.

Poema do livro Libertinagem, de 1930 (que na coletânea This Earth, That Sky: Poems by Manuel Bandeira, com traduções para o inglês de Candace Slater ganhou nome de Libertinism).

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Parabéns, Jéfi! Amor por todos os cantos pra você!

=)

7/novembro/2010

Tarte aux pommes

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Descobrimos quem ensina a arte culinária aos jovens franceses. Eu pensava que era uma coisa que passava de mãe pra filho, mas um amigo especial me mostrou o caminho da verdade: os francesinhos aprendem a fazer lindas tortas alsacianas de maçã com esse tipo de gente mostrada no vídeo aqui embaixo, Les Kitchendales.

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Tá em francês, mas vale a diversão. Se quiser saber e tentar em casa, este post segue com a receita que eles estão preparando no vídeo (read more). Contei com muitas ajudas para essa brincadeira: amigos já fizeram a torta, outro que mandou o vídeo, e ainda outros traduziram pra mim umas passagens mais estranhas.

Merci, mes chers!

4/novembro/2010

Na mesinha do café, sentei e chorei.

(||)

Terminaram as negociações para firmarmos um acordo coletivo de trabalho, e a maior conquista não chegou na forma de um aumento salarial considerável. A bolada boa, melhor pedaço do pirulito-pra-calar-a-boca, é uma cesta-alimentação de valor irreal.

Penduricalhos atrelados ao salário, não é de hoje, são assunto de longos debates políticos. Os tais benefícios, conhecidos também por salário indireto, participam da reprodução da força de trabalho de um modo já difícil de ser dispensado. Sobre eles se organizam redes também capturadas pela lógica capitalista de organização e acumulação. Pensa em todos os restaurantes, supermercados, escolas, planos de saúde e empresas de transporte movimentados por esse dinheiro do qual o trabalhador nem vê a cor.

Salário indireto alimenta setores da economia capitalista, barateia os custos da reprodução da força de trabalho, torna mais dóceis as massas… Fica fácil de entender que há um tanto de ludibriação patronal em sua concessão, portanto. Mas se há uma filhadaputice nesse mundo, não é ela somente a vontade do patrão. Pior de tudo, já diz a raposinha estripada, é que o caos reina. Fala que o trabalhador também não quer uma vida mais barata, mais confortável, mais saudável, fala! Salário indireto é concessão, mas também é conquista. Os trabalhadores podem fazer questão dele, tanto quanto fazem questão de ganhar mais dinheiro.

A contradição se põe à mesa. Senti um bolo na garganta, coisa que me fez chorar mesmo. Nosso direito à saúde, que tem a ver também com o acesso a uma boa alimentação, serviu de capote para rebuçar um oportunismo safado. E tão bem feito é o pano que, quando tento rasgá-lo reclamando, traio minha raiva e imagino o tanto de restaurante bom que vou frequentar a partir de agora.

Ah, entendeste irreal como irrisório? Não. O que eu queria dizer era inimaginável, mesmo.

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