Arquivo para fevereiro 15th, 2011

15/fevereiro/2011

Homens de Montreal

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Com alguma ousadia, considero um grande amigo um cara que nunca encontrei. Temos a mesma idade, alguns gostos parecidos, e certa afinidade que nos permite conversar prolongadamente, mesmo à distância. E essa distância é grande, porque o Canadá não é logo ali.

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Pintaremos nossos narizes e não sorriremos por isso.

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Encontrei Olivier por suas fotografias. Elas me faziam essa apresentação mais intrigante da vida de um jovem de cidade grande longe de mim. Caí de amores por seus retratos. Tem muito de experimento em suas imagens, mas penso nisso sempre como um caminho de busca pelos sentidos. Acho que esse artista frequentemente se perde na confusão de informações do seu mundo, e emerge dos seus mergulhos com um tantinho de beleza enlameada de elementos estranhos.

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Faremos as caras de quem já viveu.

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Olivier parece adorar fazer fotografias pelo seu valor de teste. Há muitos reflexos, imperfeições de filmes e papéis. Não sei se isso se explica somente por uma formação profissional, mas desconfio que há mais razões para sujar tanto as imagens. Pretensioso de minha parte, que jamais falei com ele sobre isso, acho que tanta imperfeição é uma busca consciente por uma vida exterior mais animada. Seu olhar melhora o de todos os seus homens.

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Vamos virar silhuetas.

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Por um tempo, fotografar foi sua atividade profissional. Ao que parece, ele tomou outros rumos na vida, e as imagens, ainda sendo coisas que ele faz muito bem, e que fazem muito bem a ele, não são mais uma forma de trabalho. Sua mudança de vida incluiu um afastamento da grande cidade, e hoje ele está levando uma vida por demais sossegada.

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Vestiremos tinta.

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Sossego demais, quem não sabe o que faz? Falta coisa pra fotografar na nova vida, segundo ele. A vidazinha besta de homens que vão devagar, cachorros que vão devagar, janelas que olham devagar, que eu imagino quando ele reclama (obrigado, Drummond), não atordoa o olhar, não pede fotos, não se aproveita pra qualquer experiência.

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Desapareceremos no segundo seguinte.

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Dou palpite, cá de longe. Oli pode até ter outras razões para deixar de lado o sossego e o isolamento atual, em busca de mais movimento para a vida. Mas falta de matéria para fotografar não há de ser motivo. Claro que Montreal já deu a ele excelentes modelos. Mas onde houver gente, imperfeição e tempo, não há de faltar bons retratos. E pelo que imagino, nenhuma dessas coisas é rara.

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E restaremos pendurados em alguma parede desconhecida.

 

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