Arquivo para ‘Coleção aberta’

14/setembro/2010

Como escolher um título

Se a sua ideia for, como frequentemente comigo é, falar somente a si mesmo, o título de seu texto pode não guardar relação direta com nada que exista nele. Tem lá uma linha com umas palavras escritas em cima, mas elas servem mais é pra você associar aquele produto do seu pensamento com as condições em que ele foi matutado.

Qualquer outra intenção de um texto, que não seja a satisfação egocêntrica de seu dono, exige um título esclarecedor. Num trabalho acadêmico, num assunto de email, numa capa de livro, na abertura de um vídeo, as palavras que vão ali na frente têm que servir tanto pra anunciar o que há de aparecer pela frente quanto pra fazer lembrar depois o que já foi visto.

Ser bonito, ter alguma poesia, fazer graça, são todas qualidades acessórias. Um título precisa mesmo é adiantar um pouco o que vem a seguir, pra depois poder ressuscitar um pouco o que passou. Pense em O Capital. E em O Suicídio. Ou ainda em Metamorfose. Também em Dom Casmurro. Quem vê essas pistas antes da leitura pode confiar no caminho. Depois de ter lido, um tanto das palavras pode se perder, mas o título continua guardando consigo o substancial.

Esse recurso que uso nos posts daqui, então, eu queria explicar que só serve mesmo é pra a minha memória sobre as coisas. Título aqui é ilustração, e serve pra minhas próprias graças. Mas não é um caminho interessante pra qualquer escrita que se pretenda comunicativa.

Os dois novos itens de minha coleção aberta é que me botaram a pensar nessa lenga-lenga conversinha didática.

Meu Brasil, de Daniela Broitman, é um filme bem legal, escondido atrás desse título já muito esvaziado.

Chico – Ou O País Da Delicadeza Perdida, de Nelson Motta e Walter Salles, um especial para a televisão francesa que foi lançado por aqui em DVD, não se atreveu a falar de Brasil em seu título, e fez uma escolha bem mais feliz.

2/setembro/2010

R$ 14,90

Enquanto o prêmio milionário da loteria não chega, vou me acostumando a passar só um pouquinho bem, logo depois de entrar na conta o salário, e depois viver quebrado, contando moeda pra o ônibus. Tem vez de se juntarem as contas num volume tal que o dinheiro evapora e elas não somem. Também, né? Esbanjo. Faço festinha. E depois não consigo conter a cara de preocupação, a coceira e a fome. Mas sozinho eu rio, quando não vai ter plateia pra os choramingos.

Já que os choramingos virão, que antes venham as comemorações, o sorvete, o sushi, o churrasco e o chocolate. A consciência da futilidade com que um tanto bom de dinheiro some não me faz parar de gastá-lo. Sozinho eu sou um perverso, mesmo comigo, e me digo por dentro “se vivo, tá bom”. Alguém compreende?

Bati os dedos na prateleira da lojinha e resolvi levar pra casa Pretérito Perfeito – o filme da Casa Rosa, de Gustavo Pizzi. A casa de saliências de Laranjeiras mudou um tanto suas atividades, mas como esta coleção, continua aberta. A mercadoria pode não ser das mais finas, mas ainda diverte os fregueses.

23/julho/2010

Uma alegria, a despeito de nós.

Tenho esses dois amigos, que quase nada se conhecem, e que frequentemente ponho conversando, na imaginação. Um dia aí, falei pra um deles uma opinião do outro sobre qualquer coisa, só pra dizer que eu achava a ideia muito equivocada, e o um deu razão ao outro completamente.

Vibrei com isso — se recebo de quem amo as mesmas discordâncias, eu sinto que amo as pessoas certas.

Ainda mais feliz eu fico em saber que as pessoas podem se entender e se amar, comigo ou sem mim pelo meio.

Nada disso é assunto em Do luto à luta, de Evaldo Mocarzel, filme novo para a coleção aqui aberta. Trata-se só de uma recomendação de um amigo ao outro. Se quiser e jurar devolver, eu empresto.

23/maio/2010

Atraso de séculos

Algumas coisas já foram muito piores. Tempo, trabalho e teimosia as consertaram.

Algumas coisas já foram muito melhores. O mesmo tempo, o mesmo trabalho e a mesma teimosia as estragaram.

Tempo, trabalho e teimosia tanto consertam quanto estragam algumas coisas.

Logo, dispor de mais tempo, mais trabalho e mais teimosia não vai solucionar qualquer impasse.

A gente precisa é de descobrir um sentido, antes que nosso tempo, nosso trabalho e nossa teimosia nos desnorteiem por completo.

Juízo, filme de Maria Augusta Ramos, última peça da coleção aqui aberta (e de quem estou atrasado para falar), dá testemunho do nosso enorme atraso.

12/março/2010

“pela tela, pela janela, vejo tudo em quadrados”

A favela de Dona Marta, contornada de mata, cheia de parede colorida, domina a vista que se tem da janela lá de casa. Essa atração que ela exerce nos olhos ainda não me fez ir lá subir o morro, mas me põe todo dia a acompanhar da janela o muro beirando os limites, os trilhos do plano inclinado, os prédios novos, as luzes da noite, a neblina da manhãzinha. Às vezes, esqueço que são casas de gente. Parece tanto um quadro, uma pintura ainda não acabada. Essa contemplação, que não me chama pra subir, e que me faz abstrair da presença de gente, e de histórias de gente, esvazia o morro.

Não vou dizer que sempre lamentei esse olhar. Acho até que ele faz falta a quem pode intervir em tornar a vida na cidade mais agradável. No lugar de tornar as comunidades mais bonitas, a tendência que mais facilmente se impõe é a de esconder da vista das ruas, com grandes estruturas ou compridos muros, os espaços de feiura. Queria que o gosto por olhar pra os morros do Rio se repetisse como acontece comigo e esse meu morro vizinho.

Olhar de longe e achar bonito é bom. Derrubar as barreiras de medo e desconforto é importante. Mas olhares gerais não servem de muito, se a gente não pode, às vezes, mergulhar e ver por dentro. Fraco, eu: sei de nada que se passa lá, e só olho pra um quadro, sem ver que são casas de gente.

Lições pra começar a ver por dentro vem de Notícias de uma guerra particular, de João Moreira Salles e Katia Lund, e de Santa Marta: duas semanas no morro, de Eduardo Coutinho, novas aquisições dessa coleção que estou tentando fazer.

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