Se a sua ideia for, como frequentemente comigo é, falar somente a si mesmo, o título de seu texto pode não guardar relação direta com nada que exista nele. Tem lá uma linha com umas palavras escritas em cima, mas elas servem mais é pra você associar aquele produto do seu pensamento com as condições em que ele foi matutado.
Qualquer outra intenção de um texto, que não seja a satisfação egocêntrica de seu dono, exige um título esclarecedor. Num trabalho acadêmico, num assunto de email, numa capa de livro, na abertura de um vídeo, as palavras que vão ali na frente têm que servir tanto pra anunciar o que há de aparecer pela frente quanto pra fazer lembrar depois o que já foi visto.
Ser bonito, ter alguma poesia, fazer graça, são todas qualidades acessórias. Um título precisa mesmo é adiantar um pouco o que vem a seguir, pra depois poder ressuscitar um pouco o que passou. Pense em O Capital. E em O Suicídio. Ou ainda em Metamorfose. Também em Dom Casmurro. Quem vê essas pistas antes da leitura pode confiar no caminho. Depois de ter lido, um tanto das palavras pode se perder, mas o título continua guardando consigo o substancial.
Esse recurso que uso nos posts daqui, então, eu queria explicar que só serve mesmo é pra a minha memória sobre as coisas. Título aqui é ilustração, e serve pra minhas próprias graças. Mas não é um caminho interessante pra qualquer escrita que se pretenda comunicativa.
Os dois novos itens de minha coleção aberta é que me botaram a pensar nessa lenga-lenga conversinha didática.
Meu Brasil, de Daniela Broitman, é um filme bem legal, escondido atrás desse título já muito esvaziado.
Chico – Ou O País Da Delicadeza Perdida, de Nelson Motta e Walter Salles, um especial para a televisão francesa que foi lançado por aqui em DVD, não se atreveu a falar de Brasil em seu título, e fez uma escolha bem mais feliz.

