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Terminaram as negociações para firmarmos um acordo coletivo de trabalho, e a maior conquista não chegou na forma de um aumento salarial considerável. A bolada boa, melhor pedaço do pirulito-pra-calar-a-boca, é uma cesta-alimentação de valor irreal.
Penduricalhos atrelados ao salário, não é de hoje, são assunto de longos debates políticos. Os tais benefícios, conhecidos também por salário indireto, participam da reprodução da força de trabalho de um modo já difícil de ser dispensado. Sobre eles se organizam redes também capturadas pela lógica capitalista de organização e acumulação. Pensa em todos os restaurantes, supermercados, escolas, planos de saúde e empresas de transporte movimentados por esse dinheiro do qual o trabalhador nem vê a cor.
Salário indireto alimenta setores da economia capitalista, barateia os custos da reprodução da força de trabalho, torna mais dóceis as massas… Fica fácil de entender que há um tanto de ludibriação patronal em sua concessão, portanto. Mas se há uma filhadaputice nesse mundo, não é ela somente a vontade do patrão. Pior de tudo, já diz a raposinha estripada, é que o caos reina. Fala que o trabalhador também não quer uma vida mais barata, mais confortável, mais saudável, fala! Salário indireto é concessão, mas também é conquista. Os trabalhadores podem fazer questão dele, tanto quanto fazem questão de ganhar mais dinheiro.
A contradição se põe à mesa. Senti um bolo na garganta, coisa que me fez chorar mesmo. Nosso direito à saúde, que tem a ver também com o acesso a uma boa alimentação, serviu de capote para rebuçar um oportunismo safado. E tão bem feito é o pano que, quando tento rasgá-lo reclamando, traio minha raiva e imagino o tanto de restaurante bom que vou frequentar a partir de agora.
Ah, entendeste irreal como irrisório? Não. O que eu queria dizer era inimaginável, mesmo.
