Arquivo para ‘Escrever dá trabalho’

4/novembro/2010

Na mesinha do café, sentei e chorei.

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Terminaram as negociações para firmarmos um acordo coletivo de trabalho, e a maior conquista não chegou na forma de um aumento salarial considerável. A bolada boa, melhor pedaço do pirulito-pra-calar-a-boca, é uma cesta-alimentação de valor irreal.

Penduricalhos atrelados ao salário, não é de hoje, são assunto de longos debates políticos. Os tais benefícios, conhecidos também por salário indireto, participam da reprodução da força de trabalho de um modo já difícil de ser dispensado. Sobre eles se organizam redes também capturadas pela lógica capitalista de organização e acumulação. Pensa em todos os restaurantes, supermercados, escolas, planos de saúde e empresas de transporte movimentados por esse dinheiro do qual o trabalhador nem vê a cor.

Salário indireto alimenta setores da economia capitalista, barateia os custos da reprodução da força de trabalho, torna mais dóceis as massas… Fica fácil de entender que há um tanto de ludibriação patronal em sua concessão, portanto. Mas se há uma filhadaputice nesse mundo, não é ela somente a vontade do patrão. Pior de tudo, já diz a raposinha estripada, é que o caos reina. Fala que o trabalhador também não quer uma vida mais barata, mais confortável, mais saudável, fala! Salário indireto é concessão, mas também é conquista. Os trabalhadores podem fazer questão dele, tanto quanto fazem questão de ganhar mais dinheiro.

A contradição se põe à mesa. Senti um bolo na garganta, coisa que me fez chorar mesmo. Nosso direito à saúde, que tem a ver também com o acesso a uma boa alimentação, serviu de capote para rebuçar um oportunismo safado. E tão bem feito é o pano que, quando tento rasgá-lo reclamando, traio minha raiva e imagino o tanto de restaurante bom que vou frequentar a partir de agora.

Ah, entendeste irreal como irrisório? Não. O que eu queria dizer era inimaginável, mesmo.

28/setembro/2010

Marina, Cristovam, Ciro, Leonel…

Todos querem máquina pública eficiente, que saiba arrecadar e que saiba gastar o dinheiro dos impostos. Todos querem justiça, oportunidades mais igualmente divididas. Todos querem crescimento. E cada um acha que há um caminho certo pra se conseguir todas essas coisas.

As pessoas brigam em defesa de suas ideias sobre como o mundo tem que ser organizado. Se estivermos falando do país, a briga certamente vai passar por subir juros, descer juros, expandir a assistência às famílias carentes, enxugar a máquina pública e a carga tributária (dá até preguiça fazer essa lista)… E com essas escolhas, é um sistema que se defende ou que se combate.

Todo mundo quer que tudo funcione certo, mas mesmo essa noção de funcionamento correto só se forma dentro da confusão da vida, do sentimento de pertencer a classes, da fé que as pessoas têm, da descrença que justificadamente podem ter, da necessidade de legitimar suas conquistas, da solidariedade que sentem, das informações que recebem, do tempo que estão dispostas a dedicar ao assunto (mais uma lista extensa)…

Mas nem acho que quando decidimos em quem votar, estamos pensando no país, somente. A gente pensa torto, incongruente. Decide às vezes por nós mesmos, e às vezes pelo mundo todo. E mistura, no julgamento, o que acha bonito com o que acredita ser verdadeiro, o que quer que seja certo com o que acha bom.

Nossa conversa começou permeada por escolhas. A gente se enche de fé na razão na hora de fazer nossas escolhas. E quando a razão parece falhar, como no caso dessa política de merda, resta uma decepção, uma indignidade (existe isso?) na gente. Essa escolha, se tentamos fazê-la racionalmente, nos frustra. Acho que os rumos não mudarão muito na política nacional, nem na administração pública, qualquer que seja o presidente eleito. Ainda assim, tem tanta gente brigando

29/agosto/2010

Vocação

Parece que já sei sobre o que vou escrever em meu trabalho de conclusão de curso. Essa conclusão ainda demora um pouco, mas estou fazendo um pedido ao colegiado de graduação pra poder escrever o trabalho final antes do fim. É pra poder aproveitar que o interesse chegou, que a professora que vai orientar está disponível, que eu já tenho que ler um tanto sobre o assunto ainda durante este semestre, que Saturno passa pela oitava casa…

Do que poderia falar um estivador? Já pensei, uma hora, que fosse de sindicalismo e organização popular. Quis também falar de salário, empregabilidade, precarização. A ideia já passou também pelo tema das duras condições de vida, do peso das cargas, dos problemas de saúde. E mais recentemente, já estava quase me acertando em tratar de discussões mais gerais sobre o estivador na divisão social do trabalho e o papel do Estado na economia dos portos, nessas conversas longas que a gente arruma pra não se afundar no estudo de nada que não seja a própria vida.

Olhei pra o lado e sorri. Tem coisa muito mais interessante aqui em volta. O porto ainda é o cenário maior. Mas pra que falar de estivadores? Vou falar é das putas!

(alegoriazinha safada, explicando que antes eu tinha pensado em falar sobre trabalho em empresas públicas, e agora estou estudando pra escrever sobre enfrentamento às desigualdades de gênero, entende?)

23/dezembro/2009

Quantos salários mínimos ganha o Sardenberg?

Depois de ontem, quando vi o palpiteiro Carlos Alberto Sardenberg dizer, no Jornal da Globo, que o salário mínimo real e o proposto pela Constituição são incompatíveis, nada mais me convence de que o país é uma merda. Mais: a cada vez que se confirma uma inspiração brasileira para orientar ordem das coisas do mundo, desacredito mais do mundo.

Pois o que disse o homem:

1 – Que o salário mínimo vai passar a ser de R$ 510.

2 – Que a Constituição de 1988 estabelece o valor do salário mínimo baseando-se no atendimento a necessidades básicas de uma família.

3 – Que o valor calculado pelo Dieese para que o salário mínimo atendesse ao preceito constitucional está hoje por volta de R$ 2100.

e 4 – Que o rendimento médio do trabalhador brasileiro está aí por volta dos R$ 1300.

Dessa quatro premissas, o palpiteiro conseguiu concluir que alguma coisa está errada. E na conclusão dele, o erro está na Constituição. Elevar o valor dos salários, para que os trabalhadores possam satisfazer a necessidades vitais básicas, como podemos ver pelos números, levaria as finanças do país ao colapso, e isso pra não comentar a pressão inflacionária de aumentos desse porte. Porque é que o salário mínimo deveria ser superior ao salário médio hoje pago pelo mercado? O texto constitucional é fantasioso, porque preconiza um valor que, notem, é muito superior ao rendimento médio do trabalhador brasileiro.

Eu não sou economista, e não sou palpiteiro. Só posso indicar coisas pra ficar pensando. Se quem assistiu àquele senhor me lesse, eu ia pedir pra pensar a respeito disso:

1 – Que o indicador rendimento médio explica tão pouco, que aí ele serviu foi para enganar. Alguém já se perguntou qual é o rendimento mediano (aquele que divide a população ao meio — algo como “no conjunto dos assalariados, metade ganha mais que isso, e metade ganha menos”)? Seguramente, bem menos da metade dos trabalhadores do país ganha mais que os tais R$ 1300

2 – Que os salários não servem aos trabalhadores como forma de poupança, acumulação de capital, formação de patrimônio. Ao menos não fundamentalmente. Salário é gasto na feira, nas contas, na farmácia, no mercado. O dinheiro gasto não movimenta a economia? Não aumenta a arrecadação de impostos?

3 – Que o texto constitucional não é uma formulação técnica sobre a melhor organização das contas. É um documento político, que diz o que queremos ser e como queremos fazer para isso. A gente não quer as necessidades básicas de todos os cidadãos sendo atendidas?

e 4 – Por que ainda assistir ao Jornal da Globo? (eu continuo vendo, e sei da minha resposta)

11/novembro/2009

A morte do piquete?

Quem era a mulher que se deitou num caixão, na porta da sede da Petrobras, na hora do almoço? Sei que ninguém quis velar por ela.

Um companheiro, de microfone na mão, contava com uma caixa do som pra propagar suas palavras de ordem. Ninguém parecia ouvir isso também.

Esses dois faziam, sozinhos, seu protesto de trabalhadores na porta da empresa (ou talvez estivessem acompanhados de mais um ou dois, que não notei). A fala do homem era sobre qualquer coisa sindical, qualquer coisa dirigente, qualquer coisa assim ignorada pelos passantes. A mulher tinha algodão nas narinas, fazia força pra não se mexer, e queria com aquilo simbolizar alguma morte.

Era a morte que o poder impõe aos fracos? Talvez fosse a morte dos direitos, ou das conquistas dos trabalhadores. Não sei mesmo do que falavam. Uma colega, que foi quem me avisou sobre o acontecimento, disse que alguma doença ocupacional servia de motivação para a gente que protestava.

O que agonizava ali, afogando-se na indiferença, era uma forma de manifestação. Caixa de som em porta de empresa, ninguém mais ouve. Morto desconhecido, ninguém mais vela.

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