2/agosto/2011

Tirando o pó dos nervos

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Hoje eu passei por Valéria, médica lá no meu trabalho. Conversamos como se não fosse consulta. E na receita que recebi, não há remédios. Suas instruções são: que eu chore tudo o que eu tiver vontade, que eu não assoe o nariz com muita força e que eu só me permita ficar deitado o tempo suficiente para que não junte poeira.

Acho que já parei de chorar. Nunca se sabe quando as ondas de tristeza e a saudade vão me atravessar de novo, mas estou quase certo de que, quando passarem, não tomarei um caldo. E a lembrança de meu pai, ainda bem, tem sido sempre uma lembrança feliz.

Valéria me aconselhou a repetir uns mantras pra sair mais rápido das marés mais salgadas, em que por vezes entro e de onde protelo a saída. Posso repetir o que quiser: uma oração, um versinho, um mote… Uma brincadeirinha tola que um amigão arrumou pra nós me abriu as portas de um mundo bobagento muito divertido, e é a ela que vou recorrer. Tão prático como band-aid: a gente bota ‘buceta’, (ou ‘boceta’, como quiserem) no lugar de um substantivo de nome de filme.

Tem como não rir, pensando em ir ver Harry Potter e as bucetas da morte – Parte 2?

Quem não se emociona com as lembranças da Sessão da Tarde, quando Curtindo a buceta adoidado e Ninguém segura essa buceta animavam nossas infâncias?

Me vem na cabeça as cenas de Bucetas à beira de um ataque de nervos, e a vida fica instantaneamente mais fácil…

21/junho/2011

Loira Fatal

Brasil, 2011. Drama.

Num rincão da Bahia, um monstrinho come os joelhos das pessoas, sem se incomodar com a dor.
(Vídeo gravado e dirigido pela promissora Maria Eduarda Gomes)

 

20/maio/2011

Uns dias na casa do Pai

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Cheguei ontem à Bahia, vindo do Rio meio às pressas, pra estar com um pedaço de família nesses dias, para os quais nada na vida nos prepara. Não sei até quando fico. Não sei até quando preciso ficar. Não sei o quanto isso dura. Eu, em tudo incréu, reconheço que o tempo é uma coisa de Deus.

Meu pai também reconhece que o tempo, assim como o futuro, a Deus pertence. Ontem, o velho magrinho contou uma piada na sala. De uma menina que se admira com o absurdo Eterno, com isso de estar no início e no fim de tudo, sem jamais ter começado ou terminado, e que pergunta a Deus se é então verdade essa história que o povo conta. De uma menininha que vai passar uns dias na casa do Pai:

Pai, então quer dizer que, pra o Senhor, três dias e um milhão de anos significam a mesminha coisa?!”

“Sim, minha criança. Eu sou o alfa e o ômega. Para mim, não há tempo.”

“Puxa! Manero!”

“E há algo mais que eu possa te ajudar, minha criança?”

Pai, me arruma um trocado?”

“Claro! Dá só um minuto.”

10/maio/2011

CURURU QUE LAVA O PÉ

Meu irmão, tal qual sapo, coaxou da beira do brejo, “Rei, Rei, como tá seu blog?” Eu cá vim pra agradar ao meu mais assíduo acompanhante, e pra escrever as habituais bobagens.

O fato é que o tempo sem vir aqui me desacostumou. E assim, enferrujado, vou exercitar digitação com as top 3 do alagado:

3- “Sapo Cururu, na beira do rio. Quando o sapo canta, maninha, é que está com frio”

Isso me recupera uma das mais antigas lembranças. Desconectada de qualquer história, me vem a cena de uma tia, que morreu antes dos trinta… É uma imagem de muito conforto.

2- “Eu vi um Sapo na beira do rio, de camisa verde, sentindo frio! Não era Sapo, nem Perereca…”

Cantiga pra reviver o delicioso tempo de convívio com Mariinha, que gostava demais de rir imaginando todo mundo “só de cueca!”

1- “O Sapo não lava o pé, não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer. Mas que chulé!”

Se eu vim aqui pra dizer que amo, é bom eu dizer também que ele é muito cheiroso, e que esses versos não tem nada a ver com o grande Guga. Ah, e o tanto que ele é bonito? Justifica toda a puxação de saco! Nem tem chulé, minha gente!

15/fevereiro/2011

Homens de Montreal

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Com alguma ousadia, considero um grande amigo um cara que nunca encontrei. Temos a mesma idade, alguns gostos parecidos, e certa afinidade que nos permite conversar prolongadamente, mesmo à distância. E essa distância é grande, porque o Canadá não é logo ali.

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Pintaremos nossos narizes e não sorriremos por isso.

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Encontrei Olivier por suas fotografias. Elas me faziam essa apresentação mais intrigante da vida de um jovem de cidade grande longe de mim. Caí de amores por seus retratos. Tem muito de experimento em suas imagens, mas penso nisso sempre como um caminho de busca pelos sentidos. Acho que esse artista frequentemente se perde na confusão de informações do seu mundo, e emerge dos seus mergulhos com um tantinho de beleza enlameada de elementos estranhos.

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Faremos as caras de quem já viveu.

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Olivier parece adorar fazer fotografias pelo seu valor de teste. Há muitos reflexos, imperfeições de filmes e papéis. Não sei se isso se explica somente por uma formação profissional, mas desconfio que há mais razões para sujar tanto as imagens. Pretensioso de minha parte, que jamais falei com ele sobre isso, acho que tanta imperfeição é uma busca consciente por uma vida exterior mais animada. Seu olhar melhora o de todos os seus homens.

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Vamos virar silhuetas.

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Por um tempo, fotografar foi sua atividade profissional. Ao que parece, ele tomou outros rumos na vida, e as imagens, ainda sendo coisas que ele faz muito bem, e que fazem muito bem a ele, não são mais uma forma de trabalho. Sua mudança de vida incluiu um afastamento da grande cidade, e hoje ele está levando uma vida por demais sossegada.

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Vestiremos tinta.

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Sossego demais, quem não sabe o que faz? Falta coisa pra fotografar na nova vida, segundo ele. A vidazinha besta de homens que vão devagar, cachorros que vão devagar, janelas que olham devagar, que eu imagino quando ele reclama (obrigado, Drummond), não atordoa o olhar, não pede fotos, não se aproveita pra qualquer experiência.

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Desapareceremos no segundo seguinte.

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Dou palpite, cá de longe. Oli pode até ter outras razões para deixar de lado o sossego e o isolamento atual, em busca de mais movimento para a vida. Mas falta de matéria para fotografar não há de ser motivo. Claro que Montreal já deu a ele excelentes modelos. Mas onde houver gente, imperfeição e tempo, não há de faltar bons retratos. E pelo que imagino, nenhuma dessas coisas é rara.

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E restaremos pendurados em alguma parede desconhecida.

 

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